Jesualdo Ferreira entrou nesta nova época sabendo que nela teria talvez o mais difícil desafio em toda a sua carreira no F. C. Porto. Ao nível do que havia tido no seu 1º ano, quando chega ao clube já com a época a começar e a ter que pegar num plantel campeão mas construído em volta de um 3-4-3 maluco que nos levaria a humilhações na champions. Era preciso adaptar rápido, equilibrar e logo ganhar, e isto em ano de apito dourado que rebenta em cima de Jesualdo, que fica totalmente isolado pela Sad.

Em termos tácticos, o passar de um 3-4-3 para um 4-3-3 era sem dúvida um desafio complicado. E outros desafios Jesualdo teve que vencer. Entre eles, as perdas de jogadores importantes, sem que fossem devidamente substituídos como aconteceu da 1ª para a 2ª época.
Com a saída de Anderson e Pepe e a chegada de uma série de jogadores sem qualidade para se imporem no onze do Porto, Jesualdo foi obrigado a ter que alterar alguns processos, dar algumas variantes no seu modelo de jogo mas apesar de tudo foi um trabalho mais continuado e espaçado, pois Anderson infelizmente lesionou-se ainda nem a época ia a meio, obrigando logo, Jesualdo a abdicar da ideia de ter um 10 que transportasse mais o jogo e desequilibrasse desde o meio, tornando o jogo da equipa ainda mais rápido e com menos transporte desde o meio, passando-o mais para as alas e tornando o meio campo mais compacto. Menos de transporte de bola e mais de último passe, dando maior liberdade a Lucho e jogando não com um 10 mas com dois 8, Lucho e Meireles.
Quanto á substituição de Pepe esta teve que ser feita através do regresso de Pedro Emanuel e no potenciar um jogador como Bruno Alves que foi um jogador lançado e trabalhado para o sucesso por Jesualdo. Este ano o desafio era porém maior. Para além das perdas em anos anteriores, este ano a sangria de jogadores foi ainda maior e mais grave. Bosingwa um lateral que dava muita profundidade e mudava a velocidade e os ritmos do jogo da equipa, carrilando vários ataques pelo flanco direito, enquanto Quaresma jogava com mais liberdade da esquerda para o meio.
Perdia o Mágico portista, o tecnicista, o jogador capaz de nos jogos atados (como estes que temos tido este ano em casa) contra equipas muito fechadas, resolvia jogos. Um autêntico abre latas e o elemento capaz de dar um toque de imprevisibilidade ao ataque portista.
E ainda e o esteio do meio campo: Paulo Assunção. O pêndulo do 4-3-3 de Jesualdo, onde o 6 assume uma posição fundamental, por ter que ser alguém capaz de antecipar movimentos, ler o jogo desde trás e compensar a subida dos seus colegas dando-lhes a confiança necessária de saberem que nas costas havia alguém para estancar qualquer ocasião de perigo.
3 elementos fundamentais no 4-3-3 de jesualdo que se destacava pela sua qualidade nas transições mas também pela veia goleadora de Lisandro, as assistências de Quaresma e o jogo criativo e imprevisível pelas alas de Harry Potter e Tarik.
Após estas perdas, chegaram ao Dragão uma série de jogadores que vinham de ligas de outros continentes, com um grau de exigência menor e que por isso obrigatoriamente em situação normal demorariam a expressar o seu melhor futebol e até aconselhava-se paciência no seu lançamento na equipa principal.

O problema é que desta vez Jesualdo, ao contrário de outras épocas, não podia dar tempo a esses jogadores e apostar no plantel já existente porque o mesmo já tinha sido sugado até ao máximo em anos anteriores para suprir ausências e desta vez teriam que ser mesmo 3 novos jogadores a ocupar as vagas de 3 peças tão importantes.
A 1ª grande preocupação de Jesualdo era tentar não romper ao máximo com o trabalho já feito e por isso não abalar os alicerces tácticos já assimilados e os processos com base na filosofia das transições rápidas e na boa ocupação defensiva dos espaços, assim como, da marcação zonal em todo o campo já apreendida desde o ponta de lança até ao defesa central. Por isso teve que fazer experiências e ver o que valiam os jogadores que lhe haviam trazido. Logo aí começou a 1ª dificuldade... compraram-lhe gato por lebre.
Jesualdo pediu um trinco e deram-lhe Guarín e Tomás Costa, anunciados pelo próprio presidente como os substitutos de Paulo Assunção. Uma prenda envenenada para Jesualdo quando repara que nenhum deles tem características ou até experiência como trinco clássico num sistema de 3 médios. Aí Jesualdo teve o mérito e a coragem de após dar oportunidades a todos, fixar como titular um jovem Fernando que vinha do Estrela e que já na época anterior Jesualdo lhe augurava um grande futuro.
Para além de terem dado reforços para o meio campo sem que nenhum fosse um digno sucessor de Assunção, ainda lhe acrescentaram Pélé, que tinha tudo para ser solução mas que chegou ao Porto claramente desmotivado por sair de Itália e claramente descomprometido com a oportunidade que se lhe abria o jogar num clube como o F.C. Porto. Pélé acabaria por se tornar mais problema que solução e em bom tempo foi emprestado.
Para o ataque sem Quaresma o seu sucessor seria Rodriguez. O problema é que Rodriguez tinha características totalmente diferentes de Quaresma, muito mais vertical, menos técnico e imprevisível como Quaresma, maior qualidade defensiva mas ao mesmo tempo um jogador ainda sem saber muito bem a sua posição em campo. Tratava-se de um jogador que num plantel medíocre como o do Benfica de então se destacou pelo seu carácter e pujança física, mas que na realidade era apenas o seu 1º ano em que explodia na Europa após passagem frustrante pelo PSG. Todos lhe reconheciam um potencial por explorar, mas tal como na selecção uruguaia ou até no PSG e ainda no Benfica havia a sensação de que o próprio Rodriguez não se conhecia bem como jogador e não sabia se era um extremo, um médio ofensivo, um 2º avançado.
No Porto, Jesualdo pensou não alterar o plano táctico e dar-lhe o lugar de Quaresma, mas tal verificou-se impossível de sustentar por Rodriguez apesar de não ser totalmente um médio centro, não era também totalmente um extremo, necessitando de espaços e acima de tudo de apanhar a bola mais atrás e não esperar por ela tão à frente onde os seus arranques e a sua velocidade máxima já não surtem tanto efeito.
Depois havia um tal de... Hulk. Um jogador contratado por DVD e em que se reconheciam características técnicas e principalmente físicas absolutamente impressionantes mas que se tratava de um grande diamante por lapidar, mas que no inicio da época resultava num jogador
medíocre apesar de grandes capacidades físicas, pela incapacidade constante em compreender o jogo, em saber jogar em equipa, em saber fundamentos básicos do futebol de alta competição como o saber que terrenos pisar, quando soltar a bola e saber englobar-se no processo colectivo de jogo. Era um jogador de grande potencial mas que tinha muito que aprender e evoluir e esse trabalho foi feito por Jesialdo em plena competição.Teve ainda que gerar o possível mal estar no balneário gerado pelo egoísmo de Hulk. Soube na altura certa não o queimar ou repreender, saber da importância que era que Hulk não perdesse aquilo que fazia dele forte, a coragem de querer resolver, de querer assumir o risco, mesmo que por vezes não se aconselhasse a fazê-lo. Era preciso fazê-lo ver que ele se tornaria mais perigoso no dia que percebesse que pode ser mais decisivo com um movimento de desmarcação que liberte um colega, do que com 5 arrancadas por jogo contra os defesas. Dar-lhe essa inteligência, essa cultura táctica é trabalho de treinador e foi absolutamente incrível a aprendizagem e o crescimento de Hulk em tão pouco tempo.
Tempo para esperar que jogadores como Hulk, Fernando ou o jovem Rolando maturassem era aconselhável, mas não era possível. Eles teriam que ser incluídos na equipa e crescer ao longo da competição. Mesmo com assobios dos adeptos, mesmo com críticas, com falta de paciência para com a equipa e mesmo com resultados e exibições mais fracas. Só assim, errando e experimentando é que se podia atingir o ponto perfeito para a equipa. Só assim os jogadores poderiam render o seu máximo e hoje a equipa ter um laço de união enorme, porque mesmo aqueles que no inicio se calhar estavam mais afastados ou desconfiados, hoje sentem-se parte de um grande grupo, capaz de partilhar tristezas e falhanços, trabalhar junto e unido pelas grandes vitórias e sucessos. Sem que um pense só no seu umbigo. A equipa agora aparece sempre em 1º plano.
Por estas condicionantes todas Jesualdo teve que errar, porque teve que experimentar, experimentar até encontrar a fórmula certa para conciliar jogadores de características totalmente diferentes aos que tinham saído e muitos deles ainda a precisarem de aprender a jogar num patamar competitivo diferente.
A acrescer a tudo isso, havia um problema enorme, não havia defesa esquerdo, uma vez que, mais uma vez, deram uma prenda envenenada, desta vez um tal de Benitez que era suplente no Lanuz e que mostrou no Porto o porquê de o ser. Assim sendo, para além de ter que experimentar e assim correr riscos de perder alguns pontos, Jesualdo tinha ainda que adaptar e inventar defesas esquerdos e assim tornar óbvio aos rivais que deviam atacar-nos pela esquerda, tinhamos um ponto débil que só foi acautelado com a chegada de Cissokho e desde aí notou-se a diferença, a segurança e a confiança que a equipa passou a respirar por ter um lateral esquerdo capaz, finalmente.
O professor mais do que nunca, este ano, tinha que ter a paciência para ensinar e dar confiança a um grupo de jovens como: Rodriguez, Rolando, Fernando, Hulk, Cissokho, etc. que nunca tinham sequer disputado um jogo da champions e de quem se esperava que jogassem num patamar competitivo muito elevado enquanto iam crescendo em competição. Para isso Jesualdo teve que reinventar a sua táctica, sem perder os princípios e a filosofia de jogo, mas com processos diferentes.
Teve que conseguir conciliar numa equipa a força e potência de Hulk, com o trabalho colectivo de Lisandro Lopez sem que um esbarrasse no outro e ainda incluir um Rodriguez que não jogasse demasiado encostado à linha onde o jogo se tornava muito previsível.
Conseguiu fazê-lo. Demorou tempo. Mas conseguiu fazer deste tridente um exemplo de como conciliar o talento. Rodriguez partindo mais de trás e capaz de ajudar nas tarefas defensivas desde o meio e aí transportar mais a bola vindo de trás nas jogadas em que é mais perigoso. Isso fazia que Lucho caísse mais para a direita e não aparecesse tanto no ataque mas fazia com que o seu trabalho, tacticamente, fosse muito importante, pois quer Hulk, quer Lisandro não se poderiam fixar numa faixa, porque Hulk fixo na faixa não ajudaria no trabalho defensivo e Lisandro preso à faixa o jogo todo, faria com que tivéssemos um Lisandro trabalhador mas perdêssemos a parte do Lisandro goleador, capaz de assustar os defesas.

Lucho equilibrando na direita, fazia com que Lisandro e Hulk por vezes pudessem jogar entre o lateral e o central adversários, prendendo assim 4 defesas e sendo mais perigosos quando lançados em velocidade, fosse por Meireles ou Lucho, nas chamadas transições rápidas. Para isso contribuiu a forma como Fernando se assumiu no meio campo defensivo, não só como um substituto de P. Assunção mas como alguém superior, capaz de o fazer esquecer, pois acumula a parte defensiva com a qualidade de passe e visão de jogo para ser ele logo o 1º a construir jogo e a poupar tempo no ataque mais directo e frontal à baliza. Algo que se perdia com Assunção, que era capaz de cortar linhas de passe mas depois tinha que obrigar Meireles ou Lucho a virem buscar a bola para serem eles depois a lançar o ataque, por Assunção não ter a capacidade de o fazer.
Este sistema permitiu ainda a Rodriguez explanar o seu melhor futebol como nunca havia conseguido na sua carreira, ora por não ser um extremo imprevisível como Quaresma, ora por também se perder numa posição demasiado central no meio campo e afastado da baliza. Jesualdo com este 4-3-3 que sofre várias mutações consoante a equipa se desdobre em tarefas defensivas ou ofensivas, faz com que por vezes seja um verdadeiro 4-4-2 com Rodriguez a partir do meio para a esquerda e assim desenhar o tal 4-3-3, com Hulk ou Lisandro a aparecerem mais no meio. Assim Rodriguez podia receber a bola mais atrás, participar mais no processo ofensivo desde trás no transporte de bola em velocidade, sua característica forte e ao mesmo tempo abrir o jogo à esquerda aonde pode furar as defesas contrárias.
Para chegarmos a isto, foi preciso errar como aconteceu em Londres e noutros jogos. Era preciso deixar esta equipa errar junta, sofrer junta, crescer junta para juntos hoje serem mais unidos que nunca e saberem o que cada um vale e o que cada um pode fazer em prol da equipa em campo. Após a derrota de Londres, quando muitos pediam a cabeça de Jesualdo e duvidavam do trabalho que vinha sendo feito, Jesualdo disse que esta equipa precisava de crescer em competição, que não tinha outra alternativa e que sabia que pelo potencial e carácter que demonstravam, que quando chegasse a altura decisiva da época eles estariam ao nível da equipa da época anterior ou até superior, capazes de dizer presente na luta por todas as competições.
Não foi um trabalho fácil, só um grande treinador seria capaz de construiu uma nova equipa, uma nova identidade em tão pouco tempo e fazer crescer jogadores como Hulk, Rolando e Fernando entre outros a uma velocidade incrível. Temos um plantel dos mais jovens que há memória no F. C. Porto mas que em campo faz parecer que todos jogam juntos há anos e estão todos totalmente identificados com a cultura vencedora do clube.
Só um grande treinador seria capaz de ter uma das equipas mais jovens e inexperientes em número de jogos na champions e fazê-los dar um exemplo de maturidade táctica e controlo emocional em dois jogos dificílimos contra um grande Atlético de Madrid. Para quem não conhecesse até parecia que Hulk, Rodriguez, Cissokho, Rolando, Sapunaru, etc. tinham jogado a champions toda a sua vida.
Jesualdo neste ano voltou a provar que quem é competente, quem é sério e trabalhador, mais cedo ou mais tarde vê o seu trabalho a dar frutos, por mais gente que haja a torcer contra só porque sim. Se há ano em que mais que nunca Jesualdo teve que demonstrar, coragem, determinação, competência táctica e de treino foi este ano e podemos dizer que até ao momento passou com distinção.
A liga está encaminhada, os quartos da champions são um feito enorme comparando a experiência deste grupo tão jovem ao dos outros clubes nos quartos, e ainda há a taça que estamos também nas meias finais. E depois no campo, a diferença da qualidade do nosso futebol e o fio de jogo que temos comparado para Benfica e Sporting é enorme. Apenas a finalização tem falhado. Mas o volume ofensivo de jogo, os automatismos para conseguir criar inumeras oportunidades de golo por jogo estão lá, e a capacidade de encurtar o campo aos adversários através de uma inteligente ocupação no terreno, salta também à vista de todos.

Assim se vê uma equipa bem orientada.
Pelo seu grande trabalho este ano, mas também pela prova que a continuidade no seu projecto nos colocou sempre no rumo das grandes vitórias, e pela forma como Jesualdo demonstrou ser capaz de trabalhar com aquilo que lhe dão, construindo todos os anos equipas fortes por mais que sejam as saídas, tudo isto faz com que o Professor mereça todo o crédito. Por isso nesta fase decisiva da época, em que Jesualdo precisa mais do que nunca do nosso apoio, de sentir que o seu trabalho é valorizado e acima de tudo que precisa de paz e tranquilidade para atacar o final desta época, seria por demais justo que a Sad de uma vez por todas lhe renovasse o contrato.
Chega de nos tentarem desestabilizar com o assunto renovação de Jesualdo e com mirabolantes substitutos como Paulo Bento. Não queremos tiros no escuro. Queremos renovação sim. Na continuidade. Renovar o projecto de sucesso que Jesualdo tem promovido, e não dar tiros no escuro. Chegado a esta fase da época, é fundamental que o Professor tenha a paz necessária para concluir a excelente época que o clube vem realizando. Chegou a hora do reconhecimento. A hora de deixar claro que no F.C. Porto a competência é recompensada e promovida.
Não quero nem ouvir falar em outros nomes. Quero mais do mesmo. Títulos, prestígio internacional com um líder com competência, seriedade, rigor e profissionalismo. E nestes últimos 3 anos, todos estas qualidades e adjectivos têm um nome: Jesualdo Ferreira, o Professor.


















