05 Janeiro 2014

Do panegírico

Ouvi na rádio do carro, só muito ao fim da manhã, que Eusébio teria morrido. Uso o tempo verbal condicional porque o antecipei, mediante o cotejo de frases feitas e a metralha das opiniões avulsas na A1. Antes de ver o Carlos Daniel de gravata preta no telejornal apropriadamente do antigamente, perdurando a sessão contínua por mais de uma hora e em total e rigoroso exclusivo nacional que só a RTP, imagino que a RDP/A1 também, poderia gizar como se mais nada se passasse no mundo, ouvi o noticiário da RR ao meio dia a abrir com a anunciada, pelo próprio Papa, visita de Francisco à Terra Santa em finais de Maio, e creio que já terá passado a Páscoa.

 
A gente da RTP, que lembro amiudadas vezes por ter comido e bebido daquilo em pequenino sem conseguir, contudo, moldar-me o carácter e instilar-me algum elixir da longa vida a perorar as figuras do regime, julga que o mundo parou porque morreu um tipo que deixou de jogar futebol há mais de 35 anos e cujo fim futebolístico coincidiu, historicamente - talvez acidentalmente mas seguramente com um vol d'oiseau só daquele tempo da "gaivota que voava, voava, filha da puta nunca mais parava" que era como ouvir a Grândola, Vila Morena cujo autor da cancão, Zeca Afonso, nem por isso deixou de ser dali corrido a pontapé menos de 10 anos depois do 25/4 -, com o fim do Antigo Regime, ora nem mais. Por aquelas alturas, agora que o Atlético nos visitou e levou 6-0, caíam na II Divisão os daquele tempo, sucessivamente, outros como Montijo e Barreirense, mais a CUF que não tardou.
 
Ou seja, efabularam aí a fuga de Cunhal de Peniche (1960, parece), antes ainda de Eusébio arribar em Portugal e sujeito a uma daquelas manobras do Antigo Regime que os do Sporting lembram bem e juntaram agora a morte de um dos maiores jogadores de sempre de Portugal de cá e do Ultramar com o forrobodó costumeiro que tornam certos funerais alegres. Será talvez o último prego no caixão a evocar os 40 anos do 25/4 mas onde decerto faltará a evocação da destruição da CUF como potência futebolística no novo regime a par da ruína que as nacionalizações, da banca à agricultura e das indústrias tutti quanti, os comunistas precipitaram mas ninguém terá colhões para recapitular.
 
E, entretanto, comemoro mais um ano de vida, se me permitem o regozijo a par do doodle do Google que me é simpaticamente dedicado pelo amigo americano, sendo certo que nos meus activos 40 anos de futebol com alguma memória uma parte pequeníssima dela retém Eusébio só como figura do antigamente. Mais do que Salazar, morto acidentalmente tinha eu 8 anos e picos, ou da mortalha que se seguiu num tipo que tinha Deus no nome mas cujo Thomaz levava o z, como o Luiz que a minha mãe escrevia no meu nome, além do h que ainda havia, o tempore, o mores, em Pharmacia, a minha infância era, de facto, marcada pelo Eusébio sendo eu portista e percebendo cedo o receio que o gajo infundia, nos adeptos e nos jogadores do FC Porto.
 
Porém, a história avança e não morre nos telejornais passadiços da RTP que ressuma a antigamente e eu lembro de ver muitos gajos do telejornal de gravatas pretas sem alguém morrer e percebia-se mesmo na tv a preto e branco o tom adequado à cor. Eusébio foi um grande, mas não deixou de ver o Lemos marcar, depois do bis do 2-2 da Luz, os quatro secos em finais de Janeiro de 1971 nas Antas. Sim, eu percebia tanto que o Eusébio atemorizava que nunca esquecia a final, vista na tv, da Taça de 72, com o Américo Thomaz na tribuna do Jamor dos presidiários que o construíram, ao fazer três golos ao Sporting, o último num livre directo ao 120º minuto de jogo (3-2).
 
Ora, Eusébio não pode ser palavras, porque aí o caldo entornava, e então faltaram as imagens, em especial para quem não o viu ao vivo. Eu vi, mas a RTP do Antigo Regime que ainda perdura e com uma imagem desde este ano agravada na factura da electricidade, nem imagens do Mundial-66 mostrou no telejornal ou tótó jornal da hora de almoço. O gajo do arquivo fez anos como eu ou a senhora da limpeza mandou uma vassourada nalguma relíquia que os seus 40 anos não perceberam para as imagens levarem sumiço e termos de levar com palavreado chato de uns mais antigos e umas sumidades jovens que só ouviram falar e que emprenhando de ouvido ficaram benfiquistas.
 
Em semana de Benfica-Porto, que hoje em dia significa receio crescente nos benfiquistas ao contrário do tempo de Eusébio em que os portistas se borravam todos, finou-se o símbolo que ao seu tempo atemorizava os adversários. Curiosamente num momento em que raro portista confiará de no próximo domingo o Porto meter medo ao Benfica como vinha sendo, felizmente, hábito nosso mas que um treinador, pelo visto nascido em Moçambique e que dele nem isso eu sabia, portista parece significar um golo na própria baliza.
 
E como vivi sempre mais os jogos do Porto  com o Benfica do que do Sporting com o Porto, evoco precisamente o Porto-Benfica de 10/3/1974. O último do Antigo Regime. O último em que Eusébio marcou um golo ao Porto. O último que foi o primeiro de Cubillas, chegado em Janeiro desse ano após uma colecta entre os adeptos para pagar uns 3400 contos ao Basileia por um peruano renomado que brilhara no Mundial-70 em contraponto a Pelé mas não se apuraria para o Mundial-74 que foi o primeiro que me foi dado ver (ainda guardo o calendário de jogos, 16 apenas, previstos na RTP). E foi o meu primeiro também.
 
Vi Abel correr e crescer na minha direcção, atrás da baliza do topo sul, para marcar passando a bola sobre o corpo de José Henrique. Vi ao longe, na baliza do topo norte, Eusébio marcar de cabeça após um canto da direita, a baliza onde Cubillas, num pontapé de ressaca, a meia altura, disparou após uma sobra na área benfiquista pouco depois do intervalo. O meu Porto-Benfica, de memória, antes do 25/4, deu 2-1, deu Cubillas, marcou o fim de Eusébio e do temor que infundia e eu pressentia à minha volta apesar de me fiar apenas nos 4 golos de Lemos que então só vira no resumo da tv vai fazer 43 anos.
 
O Eusébio, que confessara no Beira-Mar não querer marcar livres com receio de fazer golo ao seu Benfica, para mim já morrera como terror das defesas há uns 40 anos, apesar de ainda reter a imagem da sua elevação para cabecear no 1-1 daquele Porto-Benfica que vivi intensamente. Tinha Eusébio 32 anos, muitas incontáveis operações aos joelhos, ainda passaria pelos EUA antes de acabar no Beira-Mar que hoje passou ignorado nos noticiários, foi a figura, com Amália e Fátima, do regime felizmente caduco que o aprisionou por ordem de Salazar na reacção contemporânea da Itália destroçada pela Coreia do Norte em Inglaterra-66 de fechar a fronteira ao jogadores estrangeiros com o Inter, campeão europeu de 64 e de 65 à custa do Benfica a desejá-lo para o catenaccio de Helénio Herrera e o poder petrolífero do papá Angelo Moratti.
 
Foi um grande jogador, cujo auge não acompanhei e cujo fim testemunhei, digno de muitas honras nacionais mas dispensando-se a pasmaceira, própria de outros tempos e das gravatas negras de apresentadores patetas de telejornais à medida do regime e não do jornalismo como deve ser, mas que coincide com a emergência indiscutível de Cristiano Ronaldo que lhe é superior na disputa posta recentemente a correr. O que torna trágico o "momento" pelas parvoíces correntes ao nível dos dias de espera às portas do hospital nos últimos anos é o paradoxo do mundo perdido como se Spielberg, e não jornaleiros de pacotilha das tv's, restaurasse o Parque Jurássico quando o planeta Ronaldo se descobre a cada dia e nos dão, a galope, vozes de Coluna, José Augusto, Simões, falhando o pateta Alegre e o socrático Pinto de Sousa que tanto teria, como Mário Chulares, para dizer do defunto que ouviu falar por acaso, mas sem faltar a voz de escape roto de João Malheiro a quem porventura escapou a dedicatória da vitória de domingo como decerto a pensará... E rio-me, claro, quando vejo apoquentarem pessoas mais novas do que eu e mesmo mais velhas que o viram jogar ainda menos do que eu...
 
É isto. Em 2017 (corrigido de 1917) teremos os 100 anos das aparições na Cova da Iria. Esse Portugal está sempre em festa; mesmo que morto e enterrado, apesar de alguns zombies como o porta-voz do conselho de ministros choramingueiro que ouvi na rádio como dantes ouvia as figuras do preto e branco na rádio.

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