Enquanto dizem que enregelamos à entrada de um ano antevisto como dos mais quentes de sempre, a pretexto de mais uma vaga de frio como se a espécie humana tivesse a sobrevivência em risco, o futebol desta época trouxe um conformismo incomum que os últimos jogos confirmaram.

Os miúdos – sim, até o Benitez tem 24 anos, o Sapu 22, o Rodriguez consegue ser mais novo do que o Hulk por uns meses, mais o Rabiola e o Diogo Viana, o Ventura futuro Vítor Baía, o Guarín além do Fernando – do FC Porto ganharam aos seniores sadinos que tinham defrontado o Sporting da eterna juventude tão cantada. Uma lufada de ar fresco nesta aragem polar que sempre conheci em Janeiro (acho que mal nasci senti-a logo), uma coragem de Jesualdo merecedora de todos os aplausos que os altifalantes da propaganda do regime não difundiram.
Parece que a opção de pôr as “reservas” a mostrar serviço chocou muita gente, quando antes era motivo de chacota por se portarem mal (eliminação com o Atlético ou o Fátima), mas como a coisa até saiu bem há que perguntar aos cronistas do regime “o que é isto”, não vá a qualidade em profundidade do plantel portista causar mais surpresas do que já mostrou. Em cada espaço desportivo ficou ontem a pergunta, ao jeito de “aqueles gajos do Porto estão malucos, ou quê?”…
Isto acontece dias depois de o último da Liga ter ganho ao primeiro. Não só: foi o modo, a substância, o critério, a justiça e a valentia do Trofense a impor ao Benfica a primeira derrota no campeonato, afastando os encarnados da liderança. Onde dantes era tudo Flores de encómios, nem um aceno de simpatia para o simples Tulipa que antevejo como um Carvalhal para muito melhor: tem discurso, fluência, astúcia, sabe do jogo e para já dispensa o “doutor” e a figura de autor de livros.
Noutras circunstâncias, seria o suficiente para tocar a rebate, mas um alegado título de campeão à entrada oficial do Inverno no calendário civil, que não desportivo, deve chegar para afagar a coisa e vê-la ainda sob o prisma mais caloroso para a alma: a de que, enquanto houver luta na frente da classificação, a coisa vai bem. Será assim?
Há duas épocas, o FC Porto não era só consagrado campeão de Inverno, nesta altura, mas já o proclamado campeão da época 2005-06, o que retirava interesse à competição, só reavivado(a) quando a pauta assinalou apenas um ponto de avanço no final, dos 7 da viragem da 1ª volta.

Hoje não se fala do nivelamento por baixo, da falta de competitividade. Um ou outro cronista tocou o assunto sem despertar emoções, logo na segunda ou terça-feira. O exemplo da segunda equipa portista a vencer os titulares de Setúbal também não deve agitar as consciências que noutros contextos se sobressaltam.
Tem-se discutido, um pouquinho mais, a qualidade, do jogo, dos plantéis, dos espectáculos. Mas quase nada. O que é ridículo, atendendo às surpresas que têm sido Hulk no FC Porto, William no P. Ferreira, Nené no Nacional, mais os afamados Reyes, Aimar e Suazo que são jogadores de uma craveira internacional indiscutível. Pode ser discutível a constância do seu rendimento, mas não a sua qualidade.
Depois, serão os jogadores ou os treinadores castradores, os responsáveis pela qualidade do jogo? E que dedos têm sido apontados a esses treinadores ou jogadores?
Há emotividade e isso parece bastar a muitos. Enquanto assim durar, não há alarme. Mas sem olhar-se para a forma lúcida e brilhante como o último ganhou ao primeiro, a qualidade geral das equipas e a competitividade da prova poderão ser aferidas?
É certo que em grande parte da época, até há pouco, os três grandes jogavam sem atractividade, sem convencerem, sem pujança nem confiança. O que tem explicações para a transformação que Benfica e FC Porto sofreram, mas menos para o Sporting de quem era lícito esperar muito mais no campeonato e que fraquejou contra os dois rivais, mas desde que tal seja esquecido parece que está também tudo bem, conquanto sonhem, como sempre fizeram, com o título, por estarem perto do líder mais do que sentirem capacidade para, mais meia volta cumprida, lá chegarem.
A ascensão do FC Porto à liderança foi mal digerida e dissecada, porque confrontarmo-nos com a realidade de alguém ser claramente melhor é difícil e o português comum, a Imprensa Destrutiva e as tv’s do regime, se já têm mitigado bem a crise com a propaganda própria aos serventuários do poder, não estão para maçar as pessoas com mais preocupações.
A dado ponto, neste “embalar” doce a pretexto do anunciado “campeão de Inverno”, quase adormeci a ver o Nacional-Porto, não porque o jogo fosse desinteressante, bem pelo contrário, mas por os gritos estridentes pelo 2-2 dos madeirenses me terem despertado para a consciência de umas picaretas falantes subitamente amplificadas uns decibéis para dar conta de um golo.
Despertei, pois, para o que diziam na tv, quando só me preocupava o que via.

Vale a pena concentrarmo-nos nas mensagens televisivas? Por exemplo (negritos meus):
- ouvir dizer (na RTP) que “o árbitro Pedro Proença considerou que o jogador do Nacional jogou a bola com a mão”, assinalando penálti, é precaução do jornalista, evitando comprometer-se?Algum dia estes discursos, confrontados com um líder em fuga, poderão “voltar” às preocupações filosóficas – atendendo a esta predisposição cultural de comentar o que se vê remetendo para terceiros ou assumindo asneiras próprias – sobre a competitividade, a qualidade, a emotividade e, porque não, a arbitrariedade com que se continua a apitar nos jogos de futebol em Portugal?
- ouvir dizer (na RTP) que “Guarín jogou a bola com o braço”, no segundo penálti a favor do Setúbal, quando nenhuma imagem o mostra, é coragem de quem o relata?
- e os eufemismos (na SIC) do “Moreira podia ter feito melhor” (ou a preocupação de telegenia do “ficou mal na fotografia”), poupou-nos a imagem de um frango só por estarmos empanturrados de rabanadas e bolo-rei?













