O contexto do jogo
Para desânimo da Imprensa Destrutiva, sempre hostil ao FC Porto, o campeonato já estará ganho outra vez. Mais uma vez esta época. Como noutras épocas. Pedro Emanuel, capitão da equipa e estandarte da
correcção e combatividade portistas na Luz, na esteira de Fernando Couto, Jorge Costa e João Pinto, disse que não, falta muito campeonato. Mas lembrou, bem, olhos nos olhos com os traiçoeiros pés-de-microfone da capital, que era tempo, sim, de darem o verdadeiro mérito a quem lidera há 42 jornadas, dois anos completos, um campeonato que só artifícios de arbitragens às vezes fazem por tornar competitivo. A quente, ainda, o rescaldo da jornada europeia já aqui dissecada.
Único invicto
O FC Porto, uma vez mais, luta contra si próprio. Lutou após as 8 vitórias consecutivas, ainda há semanas. Em duas jornadas viu cortada para metade a sua vantagem pontual. Setúbal era uma casca de laranja mas sofreu a 1ª derrota. Já tinha havido o Marítimo só com vitórias… Sobrava o duelo principal, aquele que A Bola titulava como o “jogo do povo”, epíteto até aqui dado só aos derbies da capital amiúde válidos apenas para disputar o título (?) de vicecampeão. Perdeu o Benfica, ficou o FC Porto único sem derrotas para se defrontar a si próprio e testar a tese principal da história recente de duas décadas do futebol português: quem é capaz de ganhar ao FC Porto?
Proença, amigo, o recorde estava contigo!
Gabou-se uma longa série sem derrotas do Benfica: há quase dois anos não perdia em casa (1-3 com Sporting), há mais de um ano acumulou 30 e tal jogos sem perder na Liga (3-1 em Braga). Pelo meio, há precisamente nove meses, a dupla derrota podia ter acontecido, mas o sócio de camarote Pedro Proença impediu a vitória azul-branca de 1 de Abril, com penálti por marcar sobre Pepe e golo ilegal na posição de David Luiz…
Lembrar Mourinho
Mas perder pode estar ao virar da esquina. Até o Porto de Mourinho o experimentou, quase anonimamente, em Guimarães, com o Gil Vicente (0-2), com 29 jornadas, salvo erro, em 2004. Era o FC Porto a lutar contra si próprio, como sucedeu com Robson durante 53 jogos entre 1994 e 1996. No futebol não há invencíveis, mas já afirmei que, em dia normal, não há equipa para vencer o FC Porto em Portugal.
O jogo, a última vitória antes desta e as vitórias que se repetem
O FC Porto na Luz pulverizou o adversário a quem faltou uma série de coisas: não menos importante, a categoria, a competência, a classe; depois, a sorte de jornadas recentes, adversários competentes (e da metade inferior da tabela, pormenor sempre desprezado nas análises mas que não impede parangonas tipo “labaredas enormes” de gato fedorento). Vinham sobrando benefícios de arbitragem (P. Ferreira) e erros alheios (Académica).
A final era esta, Jesualdo!
A sorte, tristemente deturpada, nos duelos europeus a meio da semana iludiu os mais incautos. Jesualdo fez bem em “poupar” jogadores em Anfield, a “sua” final era na Luz. Camacho teve de meter a carne toda no assador e contra um Milan que também não precisava do resultado (e o empate garantia a qualificação) e pensava na sua “final” de sábado (0-0 com a Juventus). Isto chama-se estratégia e gozo de vantagem adquirida nas tabelas (Champions e Liga). É por isso que a formiga amealha no Verão em vez de cantar como a cigarra.
“Jogo do título” (ah, ah, ah)
A mim, apesar dos 4 pontos somente de diferença, fazia-me lembrar o Benfica-Porto de Março de 2003. Eram 10 pontos de vantagem, acabaram em 13 com o golo de Deco a meio da 1ª parte, ali na posição onde Quaresma agora marcou em arrancada a solo, o anterior Mágico a receber passe vertical de Maniche que pedia desmarcação e remate. M
ourinho gozou com a Imprensa Desportiva (pró Benfica e pró Sporting ou prósdois): “Vocês são fantásticos, conseguiram criar a ilusão de este ser o jogo do título. Mas ainda não somos campeões”.
Um já foi, o outro está quase
Foi a última vitória. Antes da última, sábado. Uma vitória como outras das últimas décadas, aquelas onde a presença tolerada do FC Porto no início da reconquista passou a ser odiada. Depois de superar o Sporting em títulos e pontos de todos os campeonatos (Robson, 1996), o FC Porto ameaça seriamente a histórica supremacia do Benfica. Já superou o grande rival em vitórias entre ambos, de que é exemplo o saldo dos últimos 25 anos: onde antes havia 8 resultados positivos num quarto de século, passou a haver só 8 derrotas em período homólogo e, melhor, já são 6 vitórias no último período considerado nas visitas à Luz. No Porto, o registo de 13 anos consecutivos dos dragões a vencer nem pelo Benfica em casa foi alguma vez aproximado.
Esta é a história contemporânea, feita de títulos e cores vivas, não de memórias em canal antigo e a preto e branco, quando até alguns troféus internacionais eram diferentes e hoje irreconhecíveis, da Taça do Mundo Jules Rimet (de resto roubada e derretida no Brasil) à Taça dos Campeões Europeus. Mas a Imprensa do Regime não desiste. Resiste, mesmo no risco de cair no ridículo.
Destaques
O jogo da Luz não teve história. Deslizes ocasionais e individuais permitiram ao adversário algumas hipóteses de golo. Nulo Gomes falhou ambas, a abrir cada uma das partes do jogo. O clássico que ficou por ver foi um penálti favorável ao FC Porto mais uma vez escamoteado. Antes, a clássica pressão das sebentas da capital a desconfiarem do árbitro do Porto… À parte a Trivela do Cigano, título digno de conto de magia, só um mano-a-mano prendeu as atenções: Bosingwa-Christian Rodriguez. Este, cansado, pouco imaginativo na finta que procura à base do pico de velocidade e da força bruta, foi presa fácil para o nosso Zé, que foi o caçador a brincar com a caça. Mesmo assim, sem o Zé perder algum lance directo, teve a mesma nota 3 do adversário e até Fucile, sem opositor à altura, mereceu 4 em Record. A Bola deu notas bem distintas aos jogadores a marcar a superioridade portista vista em campo, colectiva e individualmente.
Intervalo
Onde o Benfica é bom – além das vendas de kits que convenceram Soares Franco a fazer a mesma feira em Alvalade, e dos gabarolas maiores do mundo e arredores antes dos jogos – é nos intervalos. Equipa de boas dançarinas em que a Carolina não tem lugar; mas, especialmente, brilharam na PlayStation. Ouvia-se golo por todo o lado, a instalação sonora é excelente mas o fado do seu hino torna aquilo muito ao estilo Bairro Alto e a “casas típicas” eu prefiro típicas casas… Promoveram ali um jogo electrónico qualquer e os pacóvios vibraram, acreditem…
Final digno do túnel dos horrores
No final, o episódio também já costumeiro no túnel da Luz. Em Abril foi Rui Costa a pegar-se com Jesualdo, desta feita foi o perdulário Nulo Gomes a querer irritar o professor. É preciso ter lata alguém dizer, para alguém mais velho, que não se deve cuspir no prato onde se comeu… Mas o que houve foi insultos de “chulo” de parte a parte, o “vai-te foder” da ordem e o ex-capitão João Pinto a impor respeito à prima-dona do penteado fácil.
Linha Azul no Metro
A lata, ou falta de vergonha, já não existe em Lisboa na recepção aos adeptos portistas. Numa cidade sempre suja, e da qual por extensão ali insistem em generalizar e dar a fotografia de todo o país, ao estádio do Benfica acede-se, descobri agora que me dispus a tal, pela Linha Azul do Metropolitano – agora que os soberbos da capital não podem gozar os portuenses. Lá chegado, onde antes era uma armação de cimento, ergue-se um suposto estádio moderno só pela data da inauguração e de ter sido palco do Euro-2004. Continua a ver-se, cá fora, o cimento das bancadas dos níveis superiores e, também como no século passado, ao mamarracho rodearam-no de vielas com casebres à volta para rápido consumo e mais lixo à porta. Não é recomendável e eu só fui por curiosidade de (re)ver o estádio. Não fiquei cliente. Dragão é para toda a vida.
Estaleiro de obras na viela da Luz
Numa dessas vielas da Luz, um ovo de Colombo com um resto de pedreira no lado oposto do estádio, canalizaram as claques portistas. Há uma foto no Record que retrata a viela. Resta dizer que, tirada a mole humana, aquilo ainda é um amontoado de cabos e lixo, o estaleiro de obras por acabar, barrancos de areia que no escuro da noite pode parecer um simulacro de montanha de neve para o Inverno. Deprimente, sobram paredes e falta espaço. Houve a final do Euro, mas já não houve a final da Liga dos Campeões. Percebe-se. Só falta ali a “tenda do Adelino” (se ouvem a TSF…).
Censura aos adeptos na cortina de fumo
Mesmo revistadas uma, duas e três vezes, as claques metidas na chamada “caixa” de polícias sofreram a minúcia da revista ao ponto de uma bandeira, a dizer somente “Não somos anjos, nem bandidos, só Ultras”, ter sido alvo de inquérito a um superior, via rádio, a perguntar se uma ofensa daquelas era passível de superar a porta do estádio. Fora uma carga policial, mais por hábito local que por castigo, e um ou outro ferido ligeiro, tudo bem e em frente que atrás vinha gente. Não sei em que estado ficou o pano que perguntava: “Já pagaram a água?” [meio milhão de dívida no Seixal]… mas a dívida estará porventura incobrável. E não vi o pano na bancada – há um lápis censor que coarcta a liberdade de expressão. O problema é que ao zelo num canto, faltou a segurança noutro, onde emergiram foguetes e fumos que se julgavam proibidos. Algures nas redondezas devem fazer um monumento ao “very-light”.
Cânticos ao desafio
Os portistas ocuparam o seu lugar habitual no piso zero, onde uma vez encaixotaram três mil pessoas em mil lugares… Mais portistas no piso mais alto, uma boa curva que apoiou incessantemente. Brindados à entrada com o actualizado “Carolina, allez!”, ripostaram com o “Orelhas, cabrão, saúda o campeão”. Cânticos portistas a toda a hora, do “quem não salta é lampião” à resposta ao coro contrário com o “fdp, slb, fdp, slb”. Para remate, apropriado à quadra, “Para todos, um bom Nataaaaal, para todos um bom Natal”…
Com águia mas sem vaca…
O jogo não voltou a revelar a já conhecida “vaca gloriosa” a garantir resultados, tão-só o provinciano voo da águia e do seu tratador ajoelhado no relvado para deleite de 55 mil basbaques…
O voo, os basbaques e o ganhamos a todos convém ser sempre no início, quando não se dão da inferioridade face ao adversário…
Audiências é com o Porto
Feitas as contas, com os 5 mil portistas, os 60 mil e tal na Luz superaram os 46 mil da visita do Milan. Vê-se a diferença de tratamento e a curiosidade dos indígenas em prestarem justiça ao bicampeão nacional, desprezando o campeão europeu em título. Isto para não falar dos 48 mil no chamado derby eterno há um mês e picos…
Caricato, no final, foram duas imagens contraditórias: os “benfas” aguentaram estoicamente até aos 90’, impotentes perante a derrota mas incapazes de saírem dos lugares, ao contrário de meio estádio do Dragão quando o FC Porto está a vencer a 10 minutos do final… Pior, adeptos locais, curiosos e masoquistas, deleitaram-se a ouvir e ver os portistas a cantar e a gozar, insultando-os até, mas os da casa só reagiram, verdadeiramente, com o “Pinto da Costa, olé”. O presidente, e agora o treinador, do FC Porto é que os põe à nora. Complexos e não haverá psiquiatras que cheguem em Lisboa.
O FC Porto e Pinto da Costa não movem só a persecutora Morgado. O Benfica já não vive sem o FC Porto e Pinto da Costa. Damos audiências a muita gente…
Imprensa à vista desarmada
Justiça seja feita, nas bancadas pode circular-se à vontade, para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita, deste para aquele sector, até se misturar o gentio com a gente da Imprensa e quejandos. Vi, por isso, um Miguel “parece-me claramente que a bola entrou” Prates abatido, mal acompanhado com outros derrotistas na expressão. Imagino o que terão sido os comentários na SportTV… Eu até preferi ver o jogo junto à tribuna de Imprensa, para ter o mesmo campo de visão dos jornaleiros e saber as oportunidades de ver os lances. Já na visita a Alvalade verifiquei porque há lugares para invisuais, atrás dos ecrãs gigantes… Convém saber como e porque vêem o jogo pelo olho cego…
Por que non te callas?
Já cá fora, desfeita muita feira, com o mesmo lixo de antes do jogo espalhado pelo chão, ecoam os cânticos dos portistas à espera de saírem. “Ainda não se calaram”, desabafam os benfiquistas no exterior. Nem os calam. Os portistas ouviram-se de uma forma extraordinária. No Dragão já não há assim ambiente, e isto na proporção, na Luz, digna da batalha de Ourique, de 1 para 10 foi mesmo fantástico. O “quem não salta é lampião” encheu de inveja o estádio mudo e quedo, impávido a ouvir o “campeonato c´o caralho, outra vez”…
Descida ao balneário…
Ao intervalo do jogo, três figuras desportivas e um energúmeno no relvado. Vanessa Fernandes, Nelson Évora e José Monteiro (paralímpico) foram homenageados pelo presidente da instituição. Mas a descida de Luís Filipe Vieira ao inferno do relvado onde o Benfica era passado a ferro pelo FC Porto não pareceu bem. Nos inúmeros túneis da Luz, há desvios não inocentes pelas bandas do balneário da arbitragem e as achegas do benfiquista de Valongo José Luís Melo não chegavam para evitar a derrota.
Missão, dizem eles…
Ao descer eu mesmo, perdido nalguns labirintos, dei conta de um placard que a muitos passará despercebido. Reza assim sobre uma alegada “Missão do Sport Lisboa e Benfica (transcrevo fielmente): nas próximas décadas o Benfica será a organização desportiva de maior sucesso em Portugal, tanto no Futebol como nas Modalidades, tanto na perspectiva competitiva como na vertente económica”.
Será?
O futebol vai como vai, as Modalidades ganham títulos individuais de atletas como os acima citados contratados a outras colectividades. Mas o notável é que o famoso clube que se julgava o maior em Portugal acredita que, um dia, não assinalado nem previsto, será, porventura, a maior organização desportiva do País. É certo que, além da falta de data para a efeméride, a coisa não vinha assinada. Em 2011, o colosso anunciado algures virá de Marte? É que aquele clube vive noutro planeta.
Leitão e tanto porco…
Antes do adeus à Luz, que entretanto se foi apagando por todo o lado a mostrar como em casa de ferreiro há espeto de pau, reparei que não cortaram, ao menos isso, a água. Mas pagam-se bem por ela: garrafa de 0,5l a 1,5 euros. Nem digo nada. Cá fora, revejo o antigo atleta José Leitão, medalhado olímpico espinhense dos anos 80 e conhecido benfiquista. Nem sei como o distingui entre tantas cabeças de porco inchadas que nem vos digo.
Há um sítio para vir embora…
Por fim, a ansiada busca da saída para a A1 rumo ao Porto. Como sempre, o melhor de Lisboa…
PS: Imagens retiradas do site Vermelhices



