Natural de Mirandela, “o mestre” como Pinto da Costa de forma brilhante o chamou é uma personalidade que subiu a pulso na vida. Não tinha a elegância e o carisma de José
Mourinho nem gozava da vantagem de ter sido um grande jogador de futebol.
Tirou o curso de educação física e logo se entregou ao trabalho…Selecção angolana, Estrela de Amadora e selecção de esperanças, Alverca foram algumas das primeiras experiências de
Jesualdo e por onde passou deixou sempre a imagem de uma pessoa que se entregava 100% à modalidade que tanto ama.
Anos de dedicação.
Jesualdo é uma pessoa reservada o seu grande amigo Toni até diz que é raro conseguir sacar um sorriso de
Jesualdo que parece sempre que todos lhe devem e ninguém lhe paga.
O seu perfil é este, por isso mesmo numa das raras alturas em que
Jesualdo falou dele próprio (prefere sempre enaltecer o trabalho do colectivo e deixar espaço para brilharem os seus jogadores e não ele próprio)
Jesualdo disse “abdiquei da família e amigos mas nunca dos meus princípios”.

No Braga fez um trabalho notável, criou um 4º grande com dois 4º lugares consecutivos e deixou uma estrutura e um modelo de jogo montado para os treinadores que viriam a seguir dando uma lição de metodologia e organização…Porventura por ser uma pessoa que nunca se preocupou em promover-se e sempre se destacou pela descrição a imprensa nunca deu o devido valor ao seu fabuloso trabalho e arrastado por isso o presidente do Braga teve a hilariante tirada de dizer que dispensava
Jesualdo porque o Braga necessitava de um treinador mais ambicioso….O que dirá hoje o presidente do Braga após dois campeonatos praticamente ganhos por
Jesualdo e a maquina trituradora que é o Porto…? Parece-me que não era
Jesualdo que não tinha ambição, era o Braga que não tinha uma direcção e uma estrutura capaz de acompanhar a qualidade do mestre…
No Boavista
Jesualdo preparava-se para voltar a fazer um bom trabalho…mas foi impossível recusar o chamamento de Pinto da Costa para treinar o melhor clube português…
Jesualdo sabia que era a última oportunidade da sua carreira, que durante anos nunca tinha recebido o crédito merecido e que apesar da dificuldade do projecto, de chegar a um clube vencedor sem currículo, sem tempo de preparar a equipa nem de impor as suas ideias na composição do plantel, era o sonho daquele jovem de Mirandela que podia-se concretizar. Era a ultima oportunidade de compensar anos de sacrifício e de entrega ao trabalho, de provar que as suas ideias poderiam ter sucesso.
Jesualdo no trabalho que fez em Braga e pelos sítios por onde passou demonstrou ser “o professor” mas faltava-lhe o mestrado e esse conseguiu-o nestes quase dois anos de Porto. Era aquele degrau que lhe faltava subir, demonstrar que conseguia impor o seu estilo e as suas ideias numa equipa de alto rendimento como o Porto e juntar os títulos que a sua qualidade merecia.
Jesualdo tinha a pesada herança de uma táctica com apenas 3 defesas de
Adriaanse que contrariavam completamente a maneira como o mestre vê o futebol, um desporto que requer equilíbrios e unitário e não apenas de ataque desenfreado ou defesa cerrada.
Depois de solucionado esse problema sofreu com o processo apito dourado e com o facto de se encontrar isolado, demasiado exposto. Não havia ninguém do clube que falasse tendo
Jesualdo que levar com todas as perguntas difíceis e insinuações sem o apoio necessário da direcção.
Aí
Jesualdo conquistou o meu respeito e admiração pela sua forte personalidade, grande carácter e a sua entrega a 100% na defesa do clube que representa.
Um treinador mais preocupado consigo próprio saberia que tamanha exposição iria desgastar sua imagem perante o publico e os próprios adeptos tornando-o mais exposto à critica mas mesmo assim
Jesualdo aplicou a máxima com que sempre guiou a sua vida nunca abandonou os seus princípios…
Jesualdo não teve medo de enfrentar tudo e todos, de dizer frases desconfortáveis para os arautos do regime centralista como o fez após um jogo em que o Porto foi prejudicado pela arbitragem dizendo “numa altura em que se gosta tanto de falar em investigações só digo uma coisa após este jogo…investigue-se”. Coragem enorme, e grito de revolta da excelência que parte do homem comum que é
Jesualdo.
Ele não tem a imagem de
Mourinho, nem tem a graça de
Pedroto, é um homem comum sem gostos refinados, sem preocupar-se com o dia de amanha ou a imagem que passa para o exterior, a sua felicidade é poder trabalhar no dia a dia, ver a equipa a crescer e ver os seus jogadores voarem alto.
Jesualdo por ser fiel aos seus princípios também não se preocupou quando teve de colocar todos os benfiquistas contra ele por defender o clube que representa mesmo sabendo que grande parte dos portistas nunca o viu com bons olhos por causa do seu passado, mas mesmo assim enquanto treinador do F. C. Porto nem pestanejou na hora de sair em defesa dos interesses do clube fosse contra quem fosse.
Por muitos foi acusado de ser defensivo, medroso (eu próprio já o acusei disso) mas é inegável que o que ele construiu no Porto foi mesmo uma máquina trituradora e vencedora.
Um esquema bem montado, automatismos cimentados que fazem parecer que a equipa sabe jogar de olhos fechados e uma forma de liderança eficaz, segura, dialogante, virada para dentro, sem precisar de atitudes de autoritarismo barato para vender para fora.
Se estes dois últimos anos eram o mestrado de
Jesualdo este 2º era a conclusão da sua tese, absolutamente brilhante a gestão que
Jesualdo tem feito esta época do plantel.

Tanto criticaram por ele não utilizar os reforços…Agora tudo faz sentido…Os rivais utilizaram reforços em grande quantidade logo desde o inicio do ano esperando com isso alegrar os adeptos enchendo-lhes da habitual esperança do “este ano é que vai ser” e dar algo para escrever aos jornalistas…
Jesualdo como sempre não se importou de ser impopular em beneficio daquilo que são as suas ideias do que era o melhor para o clube. Sabia que tinha uma estrutura montada e que era difícil entrar nela e acima de tudo seria injusto obrigar jogadores que vinham de realidades competitivas inferiores entrarem numa máquina tão bem oleada como o Porto e renderem o mesmo que rendem jogadores que já vinham trabalhando segundo esses métodos um ano inteiro.
Preferiu não os queimar, dar tempo a que se adaptassem à realidade, treinando em Gaia protegidos das
câmaras, dos assobios do estádio do dragão ,com tranquilidade.
Deu a ideia que eles estavam esquecidos mas agora verificamos que tudo fez parte de um excelente planeamento do professor…Lembro-me de vezes e vezes sem conta
Jesualdo dizer aos jornalistas que jogadores como
Farias,
Kaz, Mariano etc ainda iriam neste ano ser muito importantes para o Porto. Na altura pensava que eram discursos de circunstância para os motivar, mas afinal tudo fazia parte do planeamento de
Jesualdo que nada faz ao acaso. Deixou que a estrutura campeã fizesse o trabalho inicial sozinha, sem grandes mudanças para não a desvirtuar e foi progressivamente dando minutos e um espaço competitivo distinto aos reforços consciente que quando chegasse a altura certa eles estariam lá para responder presente como responderam.
E esta era a altura certa, com a
champions em disputa, com muitos jogos importantes pela frente chegava a hora de demonstrar as horas de trabalho que
Jesualdo dedicou a estes jogadores e eles não o defraudaram.
Brilhante também
Jesualdo da forma que geriu Quaresma. Quaresma fisicamente não vinha bem e isso verificava-se também na sua confiança e instabilidade emocional.
Jesualdo aproveitou por matar vários coelhos com uma cajadada só.
Provou à equipa e aos adeptos que a equipa vale como um todo e que não precisa de Quaresma para vencer, e assim deu uma enorme prova de confiança no seu plantel demonstrando para fora e mesmo para dentro que todos têm que se convencer que o Porto não depende nem nunca dependerá de um jogador, o Porto vale acima de tudo como equipa e o que importa é a estrutura , o processo e não um ou outro jogador que o integra.
Poupou também Quaresma a mais uma polémica com os adeptos poupando-o estrategicamente a dois jogos no Dragão. Com isso Quaresma e o grupo saíram reforçados e a própria imagem exterior para os adeptos saiu reforçada. Tanto se falou numa dependência de Quaresma que em dois jogos o professor teve o dom de a reverter ao ponto de se chegar ao cúmulo de se questionar se o Porto precisaria assim tanto do “
Harry Potter”.
O derradeiro teste e aquilo que ainda me levantava duvidas era se o professor seria capaz de ter a coragem e mestria para fazer a rotatividade do plantel necessária para o jogo da
Champions.
Jesualdo é super competente mas ao contrário por exemplo de
Mourinho nunca teve formação de clube grande, sempre trabalhou em clubes pequenos e médios em que tinha poucos troféus a disputar e não necessitava de fazer uso de 18 jogadores mas apenas de 11 salvo casos de lesões. Era o passo que faltava dar e
Jesualdo contra o Boavista provou a tudo e todos que ninguém nasce grande treinador ou conhecedor de todos os segredos do futebol, que tal como seu futebol isso é um processo e
Jesualdo soube evoluir e teve a coragem e acima de tudo a inteligência necessária para gerir a equipa sem nunca perder a identidade as ideias e princípios de jogo numa entrega tremenda como se o jogo do Bessa fosse uma final quando todos os jogadores sabiam que a verdadeira final será na 4ª feira. Manteve
Lucho e Assunção e depois poupo-os mas por Quaresma e Raul Meireles nunca deixando de ter um ou dois elementos da estrutura habitualmente titular para que o corte não fosse tão radical.
Jesualdo não ganhou os 3 pontos mas se calhar ontem ganhou o respeito de todos que ainda o criticavam e acima de tudo demonstrou que temos plantel e um espírito de grupo para lutar por tudo este ano sem complexos de inferioridade.
Devo dizer que me magoa muito que ainda haja adeptos portistas que coloquem em causa o mérito de
Jesualdo e as suas qualidades porque acha que o professor merecia ser muito mais elogiado e ver muito mais reconhecido o seu trabalho do que é…
Ser treinador do Porto não é fácil, são os adeptos mais exigentes em Portugal e é raro um treinador ter passado pelo Porto sendo unânime. Talvez
Mourinho e
Pedroto e porque estamos a falar dos melhores treinadores da historia do futebol português…
Jesualdo pelo seu estilo pouco expansivo e pouco comunicativo e também pelo seu passado ligado ao Benfica infelizmente foi rotulado por grande parte dos adeptos como um treinador sem a grandeza do F. C. Porto ou como um peixe fora de água mas acho que chegou a hora de uma vez por todas
Jesualdo receber o respeito que merece. Trabalhou muito para isso, sacrificou a sua imagem e nem olhou para trás mesmo sabendo que se as coisas corressem mal seria a sua carreira que estaria em risco. Sei que o mestre não espera que lhe chovam elogios porque nunca os procurou mas mesmo assim acho que chegou a hora de reverenciarmos aquele que é actualmente o melhor treinador português a seguir a
Mourinho e talvez Queiroz.

Claro que ele não é perfeito, ainda acho que
Jesualdo se amedronta um bocado nos jogos fora de casa com grandes equipas mudando a táctica e a estrutura que tão bem trabalhou ao longo destes dois anos por outra que não sendo má não se adapta aos jogadores que temos nem sobretudo está tão trabalhada e enraizada.
Assim como acho que não faz a devida aposta nos jovens jogadores preferindo sempre apostar de forma quase obsessiva em estrangeiros sem grande qualidade mesmo quando pouco provam em campo ao invés de dar oportunidades sérias a jogadores da casa como Barbosa ou Castro que a meu ver seriam melhores opções que vários estrangeiros que temos no plantel.
Jesualdo chegou também com fama de apostar nos jovens e isso é algo que lhe falta completar no seu trabalho.
Mas só se fosse louco poderia colocar em causa todo o trabalho que
Jesualdo desenvolveu no Porto por um defeito ou falha, porque isso todos têm.
Jesualdo pode não ser o melhor treinador que o Porto já teve mas acho que claramente é dos treinadores mais importantes da história do clube e quando sair será assim que ele será recordado.
Passou um ano muito difícil por causa do apito dourado a ver a sua equipa ser prejudicada pelos árbitros e sem poder contar com o apoio de uma direcção que parecia sentir-se acossada e que estava algo limitada na sua liberdade de expressão. Logo naquele que era o seu 1º ano no F. C. Porto em que devia ter mais tranquilidade para conhecer os cantos à casa ele teve que se adaptar mais rapidamente que o normal e assumir uma postura de defesa em relação a um clube quase como se além de treinador fosse adepto ou presidente. Foi o porta-voz do clube em todos os momentos e num dos anos mais conturbados da história do clube foi campeão.
No ano a seguir viu sair
Anderson e
Pepe sem ter grandes reforços para os compensar e dentro do grupo que já tinha arranjou soluções e conseguiu construir uma equipa ainda mais forte e coesa capaz de esmagar em Portugal e de se impor na Europa.
Convém lembrar que este Porto tinha à partida para esta jornada menos um ponto conquistado que o Porto de
Mourinho que mais pontos fez no campeonato que foi o de 2002/2003…
Muitos treinadores de qualidade passaram pelo Porto mas poucos tiveram um papel tão difícil e relevante como
Jesualdo teve e poucos se sacrificaram como ele.
Foi o homem certo no momento certo. Por tudo isso ele é e sempre ficará para a história do clube como O MESTRE.
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